O Penitente #2
"Camilo nasceu, em Lisboa, a 16 de Março de 1825, conforme os registos oficiais, e também por ironia do Destino. É como se Maomé tivesse nascido na Gronelândia. Mas Alá não brincou com o seu Profeta; é um deus muito sério ou criado no deserto.
Onde Camilo nasceu, ou antes, renasceu, foi na Samardã de Trás-os-Montes. Aquela serrania é a mãe do seu renascimento, e o depôs num berço de fragas, não em corpo, mas em alma predestinada.
Começa a estudar aos sete anos (1833) quando a cólera lavrava na cidade. Encontra, no caminho da aula, tumbas e tumbas, umas atrás das outras, transportadas, para os covais, por mortos ainda vivos, e cobertos de farrapos. Estas imagens fúnebres imprimiram-se-lhe, na memória de criança, para sempre. Daí, o tom escuro do seu génio e da sua ironia, que brilha como chamas através de negros crepes. Camilo tem a ironia fúnebre de Quevedo, dizia Guerra Junqueiro.
Depois de alguns dias feriados, bate à porta da escola. Ninguém responde. A peste levara o professor, a família, os criados, e deixou a casa apavorada ou cheia de espectros pavorosos.
Estas cenas e o dobrar dos sinos a finados, embalam a infância de Camilo, sem o amparo da mãe e com o pai a dois passos do túmulo. Morre-lhe, em 1835. Fica só e pobre, sem nada e sem ninguém, em pleno Vácuo. O pai legou-lhe apenas a imagem do seu cadáver, depositado num caixão, à luz das tochas. Lá está ela, numa página da sua obra, tal como se lhe retratou na lembrança, também alumiada de círios e forrada de panos pretos.
A mãe somente a conheceu como terra de sepultura, confundida com toda a terra, que é a nosa mãe comum. Esta sepultura vai sumir-se, no barro dum cemitério lisboeta, para emergir num fragoso cerro, que domina sombriamente o pequeno Povo da Samardã, entre outros cerros, durante certos meses, vestidos de alva, como padres do Inverno ou do Eterno. E conheceu-a ainda como saudade ou triste sentimento de órfão. Esta saudade era ela, intacta, mas invisível, no seu ser. A orfandade torturou Camilo toda a vida. Arrastou, sessenta e tantos anos, aquele peso de cruz marmórea, numa atitude romântica de mártir, que os mártires são românticos e clássicos os estóicos."
in Teixeira de Pascoaes, O Penitente (Camilo Castelo Branco), Assírio & Alvim, 2002.
Onde Camilo nasceu, ou antes, renasceu, foi na Samardã de Trás-os-Montes. Aquela serrania é a mãe do seu renascimento, e o depôs num berço de fragas, não em corpo, mas em alma predestinada.
Começa a estudar aos sete anos (1833) quando a cólera lavrava na cidade. Encontra, no caminho da aula, tumbas e tumbas, umas atrás das outras, transportadas, para os covais, por mortos ainda vivos, e cobertos de farrapos. Estas imagens fúnebres imprimiram-se-lhe, na memória de criança, para sempre. Daí, o tom escuro do seu génio e da sua ironia, que brilha como chamas através de negros crepes. Camilo tem a ironia fúnebre de Quevedo, dizia Guerra Junqueiro.
Depois de alguns dias feriados, bate à porta da escola. Ninguém responde. A peste levara o professor, a família, os criados, e deixou a casa apavorada ou cheia de espectros pavorosos.
Estas cenas e o dobrar dos sinos a finados, embalam a infância de Camilo, sem o amparo da mãe e com o pai a dois passos do túmulo. Morre-lhe, em 1835. Fica só e pobre, sem nada e sem ninguém, em pleno Vácuo. O pai legou-lhe apenas a imagem do seu cadáver, depositado num caixão, à luz das tochas. Lá está ela, numa página da sua obra, tal como se lhe retratou na lembrança, também alumiada de círios e forrada de panos pretos.
A mãe somente a conheceu como terra de sepultura, confundida com toda a terra, que é a nosa mãe comum. Esta sepultura vai sumir-se, no barro dum cemitério lisboeta, para emergir num fragoso cerro, que domina sombriamente o pequeno Povo da Samardã, entre outros cerros, durante certos meses, vestidos de alva, como padres do Inverno ou do Eterno. E conheceu-a ainda como saudade ou triste sentimento de órfão. Esta saudade era ela, intacta, mas invisível, no seu ser. A orfandade torturou Camilo toda a vida. Arrastou, sessenta e tantos anos, aquele peso de cruz marmórea, numa atitude romântica de mártir, que os mártires são românticos e clássicos os estóicos."
in Teixeira de Pascoaes, O Penitente (Camilo Castelo Branco), Assírio & Alvim, 2002.

